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Antes do I ♥ NY que a gente conhece, outro logo foi aprovado pro mesmo trabalho. O que ficou veio depois, num envelope pequeno, dentro de um táxi. Quem conta é o próprio Milton Glaser, numa entrevista à rádio CBC gravada em 2010.

Um envelope pequeno de papel branco, virado de costas, no banco de vinil gasto de um táxi antigo, com um lápis de cera vermelho do lado e a rua desfocada na janela

Nova York, metade dos anos 70

A cidade tava quase falida, com o crime em alta e greve da coleta de lixo. Em 2011, o Glaser contou ao Village Voice que ele e a mulher discutiam se dava pra sair de casa à noite.

Prédios de Manhattan vistos do alto ao anoitecer, em preto e branco, com as janelas acendendo e as ruas já escuras Nova York ao anoitecer, em 10 de janeiro de 1975. Foto: Thomas J. O'Halloran, U.S. News & World Report/Biblioteca do Congresso dos EUA.

Foi nessa época que um cara do departamento de comércio do estado, o Bill Doyle, entrou no escritório do Glaser. O estado queria o turista de volta. A frase "I Love New York" já existia, e faltava um símbolo pra ela.

A primeira versão foi aprovada

Na mesma semana, o Glaser mandou uma proposta: a frase escrita, só tipografia. Aprovaram.

Só que nem ele gostava muito. Pra CBC, ele disse que aquela versão era perfeitamente aceitável, mas sem nada de especial.

Um ou dois dias depois, dentro de um táxi, ele pensou que aquilo não tinha ficado bom. Pegou um envelope pequeno e rabiscou outra ideia, com um coração no lugar do "love".

O coração veio de uma lembrança. Segundo o MoMA, ele pensou nas iniciais de namorados entalhadas em tronco de árvore, juntas por um coração.

Seis pessoas pra convencer de novo

Ele ligou pro Doyle, que não queria nem saber. O logo já tava aprovado, e juntar de novo as seis pessoas que tinham aprovado ia dar trabalho.

O Glaser insistiu e foi até a sala do Doyle mostrar o rabisco. O Doyle deu razão a ele. Uma semana depois, os seis recusaram a primeira versão e aprovaram a do envelope.

Na entrevista, o Glaser fecha o caso dizendo que, por pouco, o logo não chegou a existir.

Hoje o MoMA guarda um esboço do I ♥ NY feito num envelope em 1976, em vermelho, com 7,3 por 9,2 centímetros.

Esboço do I ♥ NY em traço vermelho grosso, num pedaço de envelope branco com a borda de baixo rasgada Esboço do I ♥ NY, de Milton Glaser, 1976. Tinta e fita sobre envelope, 7,3 x 9,2 cm. Acervo do MoMA.

O coração fazia o trabalho da palavra

As letras da versão final são da American Typewriter, segundo o MoMA. Pra mim, quem segura o logo é o coração. Ele ocupa o lugar do "love", e dá pra entender só de bater o olho, em qualquer língua.

A primeira versão também dizia "I Love New York", com todas as letras, e foi aprovada assim. Faltava uma ideia, e ela apareceu num envelope.

De graça

O Glaser fez o I ♥ NY de graça. Hoje a marca rende cerca de 1 milhão de dólares por ano em licença pro estado de Nova York, segundo um edital do próprio estado, de 2023. O MoMA chama o logo de um dos mais reconhecidos e mais imitados do mundo.

Prateleira de vitrine cheia de ursinhos de pelúcia iguais, cada um com o I ♥ NY bordado no peito e uma etiqueta de preço Ursinhos I ♥ NY à venda em Nova York. Foto: Jason Kufer/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

Em 2011, ele disse ao Village Voice que não sentia falta dos milhões. O que deixava ele pasmo era o tamanho que uma ideia tão pequena tomou. Ele falava do logo como quase nada, uns risquinhos num pedaço de papel.

Por onde eu começo

O Glaser começou pela letra e só depois chegou na ideia. Eu faço o contrário. Antes de pensar em fonte, eu rabisco a ideia num caderno de pauta, de folha cor de areia.

Pra mim, essa história é o melhor argumento pra começar pelo rabisco. A versão só de letra chegou a ser aprovada por seis pessoas. A que ficou cabia num envelope.

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