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Em 2009, o Vans Warped Tour rodava os Estados Unidos. Era um festival de punk que ia de cidade em cidade, e quem patrocinava a turnê era a Monster. No palco, as bandas esvaziavam a lata de energético e enchiam de água pra aguentar o show.

Lata preta de Liquid Death em cima de uma pedra num riacho de montanha nos Alpes, com sol baixo

Quem conta é o Mike Cessario, que tava lá vendo os amigos tocarem. Uns anos depois, ele criou a Liquid Death, uma água em lata que em 2024 foi avaliada em US$ 1,4 bilhão.

Água não tinha cara de palco

Os caras queriam beber água. Só que água não tinha cara de palco. Quem tinha era a lata de energético e a de cerveja.

Banda tocando num palco ao ar livre do Warped Tour, com o público na frente Warped Tour de 2009, com a Dance Gavin Dance no palco. Foto: benuski/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

O Cessario conhecia os dois lados dessa cena. Ele tocou em banda de punk e de metal, e trabalhou anos em agência de publicidade, em casas como a VaynerMedia e a Crispin Porter Bogusky.

Um comercial antes da lata

Em 2018, a Liquid Death ainda não tinha nenhuma lata pra vender. Mesmo assim, ele abriu uma página da marca no Facebook e gastou US$ 1.500 pra filmar um comercial, fora uns milhares de dólares de mídia.

Uma mulher sorri pra câmera enquanto derrama água de uma lata, numa cena do comercial Quadro do primeiro comercial da Liquid Death, que rodou no Facebook em 2018. Frame: Liquid Death.

Segundo ele, o vídeo bateu 3 milhões de visualizações em quatro ou cinco meses, e a página da marca passou a da Aquafina em seguidores. Isso sem vender uma lata. Pra mim, esse é o detalhe que mais explica a Liquid Death. Antes de existir o produto, já tinha gente se vendo naquela cena.

A lata de 500 ml

A água começou a ser vendida em janeiro de 2019, pelo site e pela Amazon. No começo ela vinha de uma nascente nos Alpes da Áustria, mas a novidade tava toda na lata.

Era uma lata de 500 ml, do tamanho de uma de cerveja, com uma caveira derretendo no logo e o slogan "Murder Your Thirst", algo como "mate a sua sede". De longe, no show, ninguém sabe que você tá bebendo água.

Lata branca e alta da Liquid Death, com o nome em letra gótica e a caveira dourada derretendo no meio A lata clássica de 500 ml. Foto: Liquid Death/divulgação.

Dá pra ler cada escolha dessa lata voltando pra cena de 2009. O tamanho é o da lata que o cara já segurava no palco, e a caveira e o slogan vêm do mundo das bandas que o Cessario via tocar.

113 mil lojas

Em 2023, ela já tava em 113 mil lojas nos Estados Unidos e no Reino Unido, com US$ 263 milhões em vendas no varejo. Em 2024 foram US$ 333 milhões, e em março daquele ano, numa rodada de investimento de US$ 67 milhões, a empresa foi avaliada em US$ 1,4 bilhão.

Tudo isso vendendo água, a coisa mais sem graça da geladeira.

Em dezembro de 2025 veio a parte que eu mais gosto. A Liquid Death lançou o próprio energético, o Sparkling Energy. A marca que nasceu dentro da lata da Monster agora tem a lata de energético dela.

O público-alvo e a cena

Quando um briefing diz que a marca fala com "jovens de 18 a 34", cada pessoa na reunião imagina alguém diferente. Com o cara da banda, todo mundo vê a mesma cena, o palco, a sede e a lata na mão.

E de uma cena sai decisão de design. Tamanho, forma, cor, o que vai escrito na lata. De "jovens de 18 a 34" eu nunca vi sair lata nenhuma.

No próximo briefing, risca o "público-alvo" e escreve a cena. Quem tá ali e o que essa pessoa quer ter na mão. Na Liquid Death, era um cara no palco, com sede, segurando uma lata de energético cheia de água.

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