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Em 2016, num palco em Toronto, o Geoffrey Hinton disse que era pra parar de formar radiologistas agora. Em cinco anos, segundo ele, a IA ia ler exame melhor que eles.

Mesa com um negatoscópio aceso mostrando um raio-x de tórax ao lado de um monitor com um grid de layout

Na mesma fala, ele comparou o radiologista ao coiote do desenho, aquele que já passou da beira do penhasco e ainda não olhou pra baixo. Em 2024, o Hinton ganhou o Nobel de Física pelas pesquisas pioneiras em IA.

A IA chegou mesmo

Hoje a FDA, a agência que libera esse tipo de software nos EUA, já aprovou mais de 700 modelos de IA de radiologia. Só a Mayo Clinic usa mais de 250.

Só que os radiologistas não sumiram. A equipe de radiologia da Mayo cresceu 55% desde a previsão do Hinton. Em 2025, os EUA abriram 1.208 vagas de residência em radiologia, o maior número da história, e mesmo assim falta radiologista nos hospitais americanos. A renda média deles passou de 500 mil dólares por ano.

Radiologista numa sala escura, olhando três monitores com exames de tomografia Foto: Ashley Prytherch, Royal Surrey County Hospital/Wellcome Collection (CC BY 4.0).

Anos depois, o próprio Hinton disse que errou o prazo, mas não a direção.

Os outros 64%

A previsão olhou só pra uma parte do trabalho. Num estudo de 2012, o radiologista passava 36% do tempo lendo imagem. O resto ia pra acompanhar os exames, explicar o resultado pros outros médicos e às vezes pro paciente, ensinar residentes e técnicos e revisar os pedidos de exame.

Gráfico de barra: 36% do tempo do radiologista lendo imagem e 64% no resto do trabalho

E exame mais rápido virou mais exame. No começo dos anos 2000, o raio-x saiu do filme e foi pro computador, e cada radiologista passou a dar conta de muito mais imagem. Os médicos passaram a pedir mais exame, e o uso subiu 60% de 2000 a 2008.

Um economista inglês já tinha visto isso em 1865. O William Stanley Jevons reparou que a máquina a vapor mais econômica fez a Inglaterra queimar mais carvão, e não menos. Quando uma coisa fica barata, a gente usa muito mais dela. Isso ficou conhecido como paradoxo de Jevons.

Boa parte dessa história tá num ensaio da Deena Mousa, publicado em 2025 na revista Works in Progress.

A parte que todo mundo vê

No design, a parte que a IA faz rápido é a peça, como a arte do post, o banner e a tela. É a parte que todo mundo vê, igual à imagem do exame.

Raio-x de tórax em preto e branco, de frente Imagem: Mikael Häggström/Wikimedia Commons (CC0).

Quem usa a IA do Canva faz 3 vezes mais designs, e na Upwork cada contrato de produção criativa ficou 13% mais barato. O dinheiro foi pro projeto grande. Na Fiverr, os clientes que fecham projeto de design acima de mil dólares aumentaram 25% em um ano.

Nem todo designer sai ganhando com isso. Nos EUA, a previsão oficial é de 2% menos designer gráfico de 2025 a 2035.

O resto do trabalho

O trabalho do designer nunca foi só a peça. Antes dela, alguém precisa conversar com quem pediu, entender o que precisa ser dito, pra quem e em que ordem, e decidir o que fica de fora.

Por isso, em vez de orçar 10 artes, orça o que elas precisam resolver. As artes saem disso, e a parte que a IA não faz aparece no preço.

Eu comecei no design com uns 14 anos, fazendo arte no Photoshop, e a peça ainda é o que as pessoas veem do meu trabalho. Só que ela sai dessas decisões. Elas são o dedo e a expertise de quem cria, e isso a IA não tem, porque não é humana.

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